O mercado de cerveja artesanal em 2025 caminhou em um cenário de estabilidade em volume, mas com mudanças importantes na forma como o consumidor compra e nos formatos que mais geram valor. Dentro desse contexto, o chope para viagem via growler ganhou relevância no varejo, especialmente para cervejarias artesanais que atuam em redes de supermercados, emporários e tap stations.
Enquanto latas e garrafas artesanais enfrentaram estagnação em volume no mercado nacional, o growler se consolidou como um formato capaz de sustentar ticket médio mais alto, capturar demanda em momentos de ruptura e criar uma rotina de compra mais previsível.
O papel do growler no mix da cerveja artesanal
Considerando PET e vidro, o growler representa hoje cerca de 3,5% a 5% do volume de cerveja artesanal comercializado em redes de varejo de grande porte. Em termos de share, é um espaço pequeno. Em termos de impacto, é um formato estratégico.
O desempenho do growler se explica por três fatores principais:
- valor por transação mais alto
- consumo concentrado em janelas previsíveis
capacidade de absorver demanda quando faltam outros formatos nas gôndolas
Na prática, ele deixa de ser um “formato alternativo” e passa a funcionar como uma ferramenta de defesa de receita para a cervejaria.
Ticket médio: por que o growler vale mais por venda
Dados de transações em pontos de recarga, com base em adquirentes como Stone e Getnet, mostram que o ticket médio do growler é aproximadamente 18% superior ao de garrafas e latas artesanais avulsas.
Isso acontece porque o growler está muito ligado a ocasiões de consumo compartilhado e compra planejada: churrasco, encontro em casa, fim de semana. O consumidor tende a comprar mais volume por transação, e a comparação de preço unitário com a lata individual perde força.
Para a operação da cervejaria, o resultado é claro:
- maior receita por venda
- custo de embalagem por litro menor
- melhor aproveitamento logístico por unidade transportada
Frequência e janela de consumo
Outro ponto relevante é a distribuição das vendas ao longo da semana. Cerca de 70% das vendas de growler no varejo acontecem entre quinta-feira e domingo, com pico concentrado em sexta e sábado.
Essa concentração cria uma janela de planejamento operacional:
- produção pode ser ajustada para garantir frescor especialmente para o fim de semana
- a logística de barris ganha um ritmo semanal mais previsível
- o risco de sobra ou falta de chope diminui quando existe controle de dados e histórico
Cervejarias que enxergam essas janelas de consumo conseguem alinhar produção, estoque e rota de entrega com mais precisão.
Ruptura nas gôndolas e migração de formato
Em setembro de 2025, a categoria de cervejas registrou índice de ruptura de 12,8% no varejo brasileiro, segundo dados da Neogrid. No universo da cerveja artesanal, isso se traduz em prateleiras sem determinados estilos ou marcas em momentos importantes de compra.
O comportamento que se observa no ponto de venda é direto: quando o consumidor não encontra a lata ou garrafa que queria, migra para o chope disponível nas tap stations. O growler passa a ser a opção imediata, especialmente quando está bem posicionado, visível e com estilos atrativos.
Cervejarias com:
- bom controle de estoque de barris
- reposição alinhada ao calendário de fim de semana
- integração com o varejista para leitura de giro
têm maior probabilidade de capturar essa venda que, de outra forma, seria perdida.
Leitura regional do desempenho do growler
O comportamento de compra de growler não é igual em todo o país. As diferenças regionais ajudam a orientar formato, posicionamento e canal.
Sul: recorrência e vidro reutilizável
A Região Sul vem se consolidando como uma das principais locomotivas do consumo de growler. Em 2025, o número de pontos de recarga cresceu cerca de 12%.
O formato dominante é o growler de vidro reutilizável, associado a um hábito já estabelecido: a “recarga de final de semana”. O ticket médio na região é aproximadamente 15% superior ao das latas artesanais, o que reforça o papel do growler na composição de receita das cervejarias locais.
Sudeste: conveniência e PET pré-envasado
O Sudeste reúne 45,6% das cervejarias do país e tem uma dinâmica própria. O crescimento do growler passa menos pela recarga tradicional e mais pelo PET pré-envasado.
Grandes supermercados em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte adotaram geladeiras com growlers já prontos para levar, reduzindo filas de recarga e tornando o formato mais conveniente para o ritmo urbano.
O ticket médio do growler no Sudeste é cerca de 22% maior que o das latas. A região também foi uma das mais impactadas pela ruptura em 2025, o que reforçou o papel do chope como alternativa quando faltam SKUs nas gôndolas.
Nordeste: crescimento acelerado e porta de entrada
O Nordeste vem se destacando pelo crescimento do número de cervejarias e pela expansão dos formatos ligados à experiência, como tap stations em emporários gourmet.
O growler entra nesses canais como porta de entrada para novos consumidores de cerveja artesanal, com foco em estilos mais refrescantes. As Catharina Sours, por exemplo, tiveram crescimento de 54,5% em volume, o que ajuda a tracionar o formato em regiões de clima quente.
Centro-Oeste: volume e atacarejo
No Centro-Oeste, o desempenho do growler está diretamente ligado ao avanço do atacarejo. O formato predominante é o PET de 1,5 L e 2 L, posicionado como alternativa econômica para eventos e consumo coletivo.
O ticket médio do growler na região é cerca de 5% superior ao das latas, mas o diferencial competitivo está mais no volume por transação e na percepção de custo-benefício do que no posicionamento de marca.
Comparativo regional
A tabela a seguir resume o comportamento por região:
| Região | Crescimento de pontos de venda (PDVs) | Formato dominante | Ticket médio em relação às latas |
| Sul | +12% | Vidro (recarga) | +15% |
| Sudeste | +8% | PET (pré-envase) | +22% |
| Nordeste | +16% | Tap station / degustação | +10% |
| Centro-Oeste | +7% | PET (volume / atacarejo) | +5% |
O que esses dados indicam para as cervejarias artesanais
Os movimentos observados em 2025 mostram que o crescimento da cerveja artesanal está menos ligado ao ganho de volume absoluto e mais à capacidade de adaptar formato e canal ao comportamento real do consumidor.
O growler se consolidou como um instrumento relevante para:
- elevar ticket médio
- mitigar efeitos da ruptura no varejo
- dar previsibilidade ao planejamento de produção e logística
Para as cervejarias artesanais, isso significa que decisões sobre:
- onde atuar (região e canal)
- qual formato priorizar (vidro, PET, pré-envase, recarga)
- como conectar produção, estoque e PDV
Podem ter impacto direto em margem e estabilidade de receita, mesmo em um cenário de volume estável.